sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Poesia erótica de Drummond

"Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos)"
Carlos Drummond de Andrade

Imaginando a polêmica que causaria levando ao público poemas sobre o amor erótico, Drummond decidiu que a obra "O amor natural" seria publicada somente após sua morte.
A verdade é que nesta obra o grande poeta produz textos de profundo lirismo e de linguagem desnuda. O público, após lê-lo, reafirmará sua admiração por Drummond, que produziu literatura que inquieta o leitor, fazendo-o rever conceitos e preconceitos, desvendando o lado místico do amor.
A língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Clarice Lispector, minha referência na literatura

"A consagração de Clarice Lispector deu-se desde o primeiro momento. Ao publicar seus livros, a autora abreviou a chegada da maturidade à literatura brasileira. Em menos de um século, nosso português verde-amarelo tinha finalmente como se justificar. Com Guimarães Rosa, seu par em importância, consolidou um cânon a que faltava até massa crítica para ser formado. No entanto, Clarice dizia escrever de ouvido, negando, a um só tempo, o posto intelectual que tentavam lhe arranjar, e a erudição como ferramenta do escritor. Um pouco mais atrás, um pouco antes, um pouco abaixo. É dos lugares inexatos que parece brotar a prosa clariciana. Áreas para as quais o pensamento não havia ainda sido orientado. Seu texto, pode-se dizer, possui uma dicção tal que ao idioma restava apenas colaborar, flexibilizando a gramática, despojando-se dos punhos castiços, para que dele se desprendesse o espírito ancestral, a razão primeira pela qual existe uma língua. "


(Texto de Adriana Lunardi, O eterno direito ao grito)